Retaliação — Capítulo 1
Capítulo 1 — Simetria
As luzes na rua iluminavam pouco e em alguns pontos estratégicos…
Rogério chegou do trabalho tarde da noite. Uma mochila pesava no seu ombro direito, e os sapatos molhados de suor o incomodavam a cada passo que dava. Chegou na porta de casa e olhou para o quintal com um certo receio. Tirou os olhos de lá e focou na lua. Tentou pensar no motivo da lua estar transpassando uma nuvem bastante densa. Não conseguiu fugir do pensamento triste que o circundava. Voltou a olhar para a casa…
Ele abriu o portão de muro baixo e entrou em silêncio como se não quisesse acordar alguém.
— Que idiota… — pensou sozinho.
Deixou a mochila encostada na porta de madeira que separava a sala do quintal. Jogou os sapatos para o alto em chutes precisos e tirou as meias sujas de mão cheia. O frio da noite relaxou os seus pés e o fez suspirar. O suspiro trepidante era inevitável. Calçou suas sandálias velhas que quase encostavam seus pés ao chão e decidiu andar pelas ruas. Na esquina de casa encontrou dois colegas da vizinhança.
— Boa noite, Rogério — disse Ailton, evitando apelidos e diminutivos.
— Boa noite.
— Como você está? — perguntou Ailton, mas alguns segundos depois se arrependeu da pergunta. — Desculpa, cara, que pergunta. Eu sei, eu sei, desculpa.
Rogério permaneceu em silêncio.
— A gente tá indo ali no bar, beber alguma coisa, o que me diz?
— Eu não estou com cabeça pra isso.
— Mas eu pago. Acho que você está precisando se distrair um pouco. Deveria ter tirado férias, inclusive.
— Não posso tirar férias agora. Tenho prazos.
— Tudo bem, tudo bem.
Rogério olhou para o outro colega e viu um sorriso inocente. Foi o que o fez aceitar.
— Então vamos. — Ailton fez um gesto para Bruno o seguir. Bruno era deficiente auditivo.
Já no bar, eles procuravam algo interessante no cardápio e, enquanto escolhiam, o Ailton tomou algumas doses de cachaça. Tão rápido que Rogério sentiu o desconforto na sua garganta.
— O que foi? Eu só quero abrir logo a mente pra a noite não ser em vão — respondeu Ailton ao olhar de desaprovação de Bruno.
Rogério se animou um pouco e até que abriu o apetite.
O jantar foi bem tranquilo, até que Ailton, com sua curiosidade impensada, tocou em um assunto delicado…
— Sua esposa sabia cozinhar bem?
Rogério engoliu pesado e não queria ter ouvido, mas automaticamente começou a pensar numa resposta. Depois percebeu que não tinha o que pensar, era uma afirmação simples como o “Sim” ou “Não”, mas a cada segundo que pensava nela ele gastava outros segundos para se desvincular da imagem.
— Sim.
A resposta curta deu abertura para Ailton prosseguir.
— Ela gostava de morar naquela casa?
— Sim.
— Que cruel, cara. Como alguém poderia fazer aquilo?
Rogério parou de responder.
— Eu sei, desculpa. Eu não deveria estar perguntando isso, mas é que… você sabe, a gente é curioso e… do jeito que aconteceu…
Rogério continuou imóvel. O garçom, ouvindo a conversa, chegou mais perto e tentou tirar suas dúvidas.
— Você acha que foi ele… o Edgar?
Rogério segurou os talheres com força e, em um impulso, socou a mesa, se impulsionando até o colarinho do garçom. Apontou a faca de serra para o rosto do garçom e trincou os dentes.
— Não fale dele perto de mim.
— Calma, Rogério, ele só tinha dúvidas igual a todos nós. Eu acho que você precisa se acalmar um pouco, esfriar a cabeça. Ninguém gosta de passar por essas situações, mas não tem muito o que fazer. A vida é uma merda mesmo — disse Ailton ao pousar a mão direita sobre o ombro do amigo e o afastar do garçom. Ele agora queria se livrar do problema.
Rogério voltou para sua cadeira em silêncio. Todos ao redor olhavam para ele. Depois de alguns segundos em silêncio, respirou fundo e tentou se redimir.
— Eu preciso descansar, obrigado pelo convite. Já não consigo mais ficar um dia sem pensar nisso. Aquele… — Rogério trincou os dentes.
— Calma, cara. Você quer que eu te leve pra casa?
— Não, eu preciso andar um pouco.
Rogério, sem jeito, deu as costas para os amigos no Bar da Esperança. Na porta do bar, ele olhou para o centro da rua e reparou na simetria dos postes. Aquela visão o levou para dias atrás, quando tinha o seu mundo no lugar. Quando podia sorrir ao acordar pela manhã e seguir em frente. Sua mente pregava peças e procurava por um conforto automático. Ele podia ouvir a voz ecoar na sua mente como um sussurro no limbo escuro do luto.
“Bom dia, amor… não vai acordar? Eu bem que queria que você ficasse em casa hoje, mas… alguém tem que trabalhar aqui.”
Rogério respirou fundo. Sentiu o peito encher de ar e expirou em um sopro trêmulo.
“Fez eu me sentir um marido opressor e ocultou o fato de ter acabado de chegar de um plantão… Se eu pudesse, eu ficaria grudado em você todos os dias… mas hoje não dá.”
— Se eu pudesse… eu devia ter ficado…
Rogério soluçou… seu peito balançou forte ignorando sua expressão vazia. Ele sentiu o rosto se contrair com força e pôde lamentar a dor de não poder gritar aos ventos o que sentia. Sua língua inquieta saiu pelo canto da boca em um ato involuntário de engolir o sofrimento e sentiu o sal das lágrimas marcar aquela noite fria. Rogério olhou para as luzes dos postes com os olhos embaçados de lágrimas e pôde ver a simetria de um jeito mais intenso. Ele sentiu que seus sonhos haviam se esvaído. Sua esperança havia ido embora.