Ao Som da Trombeta — Capítulo 1

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Capítulo 1 — Marionetes

No asfalto, com a bochecha colada ao chão morno, o corpo de Marina ainda não havia esquecido a queda; a mente, embora desperta, estava mergulhada num silêncio profundo. Havia poeira na boca. Havia suor entre os fios de cabelo. Mas, acima de tudo, havia confusão. Levantou o rosto lentamente depois de alguns segundos, recobrando a consciência, e viu os corpos estirados em volta. Respirou fundo e percebeu pedrinhas de areia incomodando o seu lábio inferior. Impulsionou o corpo para cima, com as duas mãos ao chão sentindo o calor incomodar, mas se pôs de pé.

A avenida se estendia como uma cicatriz sob a luz branca e implacável do meio-dia. Era larga demais para o pouco tráfego que existia, com faixas amarelas duplas no centro, corroídas pelo tempo. Dos dois lados, casas se amontoavam numa desordem metálica. Não havia alvenaria ali; as residências eram feitas de retalhos de contêineres, placas de zinco ondulado e restos de fuselagens de máquinas antigas que ninguém sabia nomear. Pareciam escombros de si mesmas, uma favela industrial que brilhava sob o sol, refletindo o calor de volta para os rostos suados de seus habitantes.

Marina limpou as mãos na saia do vestido simples. Mais um dia, pensou, a frase ecoando com um peso que ela não sabia explicar.

Ao final da avenida, imponente e destoante, erguia-se o Templo Central do distrito. Aquele prédio não era feito de sucata. Era uma estrutura brutalista de concreto armado, sólida, eterna, com acabamentos finos e vitrais que, diziam, filtravam a luz da Mãe-Rainha. Enquanto o povo vivia em latas de sardinha aquecidas, a fé morava numa fortaleza refrigerada.

Seus olhos se acostumaram às cores em volta. Era dia, mas existia um calor sombrio, um calor abafado por um céu acinzentado. À sua volta, a cidade se erguia dos mortos. As pessoas começaram a acordar. Moviam cada membro do corpo lentamente, como se fossem marionetes, uma peça interpretada para dar ritmo ao despertar. Se sentiu errada por observar e hesitou em caminhar, mas se lembrou dos seus compromissos. Eu preciso correr.

De repente, o tempo a cobrava. Mas não sabia as horas, era algo automático. Tenho certeza que posso me atrasar. Começou a caminhar em direção ao Templo Central. Viu um homem se levantar e começar a cantar um louvor à Mãe-Rainha.

É mesmo… eu deveria cantar como ele?

Outras pessoas agradeciam por mais um sono profundo. Marina não conseguia enxergar dessa forma. Tinha uma inquietação que seu corpo expressava involuntariamente. O seu rosto exibia uma imagem de descontentamento sempre que percebia essas adorações fora de contexto, mas sabia que precisava adorar também, principalmente pelo temor.

— Mãe, mãe… eu já posso me levantar? — perguntou um menino deitado na calçada.

— Claro, meu filho. Já fomos salvos pela Mãe hoje.

Mãe? É verdade, eu estava com a minha mãe indo para o Templo Central, não estava?

As memórias estavam confusas, mas era sempre assim quando a trombeta soava. Marina continuou observando, tentando pescar fragmentos de lembrança no mar revolto de sua mente. Lembrava-se de uma mão quente segurando a sua. O cheiro de um perfume floral, algo que não existia no Distrito da Temperança. Rosália. O nome veio à tona, doce e doloroso.

Ela estava comigo. Onde ela está?

Marina balançou a cabeça, tentando afastar a vertigem. Não podia parar. O trabalho a esperava. O fardo era seguir até o Templo Central e receber o novo trabalho. No caminho, a estrutura da cidade sempre a deixava confusa. Por que tanto metal para eles e tanto concreto para a Mãe? A pergunta morria na garganta, sufocada pela poeira.

Chegando à praça do Templo, o cenário mudava. A desordem dava lugar a filas organizadas. Rituais repetitivos. Homens e mulheres vestindo trapos finos, apresentando suas saudações aos vigias, imóveis. Palavras rápidas, saudações automáticas.

— Pela graça da Mãe.

— Que o Silêncio nos guarde.

Marina entrou na fila dos peixeiros. O cheiro ali era forte, uma mistura de maresia e sangue. Pegou seu avental num gancho comunitário e caminhou até sua bancada.

— Você demorou a acordar hoje — disse uma voz ao lado.

Era Noah. Ele já estava limpando um peixe grande, escamas prateadas voando como confete. Ele tinha olheiras profundas, como se o sono da trombeta não o tivesse descansado, mas o drenado.

— A queda foi forte — respondeu Marina, pegando sua faca. O cabo de madeira estava liso pelo uso. — E as memórias… demoraram a voltar.

Noah parou a faca no ar. Olhou para os lados, verificando se algum Vigia ou algum devoto mais fervoroso estava por perto.

— Você também sente? — sussurrou ele, sem olhar para ela. — Essa sensação de que… já conversamos sobre isso?

Marina sentiu um arrepio na espinha. No Distrito da Temperança, expressar sentimentos em público era proibido. Questionar a realidade era heresia. A dúvida era uma doença contagiosa.

— Não sei do que você está falando — disse ela, mas suas mãos tremiam levemente. — Só estou cansada.

— Mentira. — Noah soltou uma risada seca, sem humor. — Você lembra da minha mãe?

A pergunta a pegou desprevenida.

— Eu nem conheço sua mãe, Noah.

— Exatamente. — Ele voltou a cortar o peixe com violência desnecessária. — Eu também não. Mas hoje, quando acordei… eu senti o cheiro de bolo de milho. Minha mãe fazia bolo de milho. Eu lembro do cheiro, Marina. Mas não lembro o rosto dela.

Marina olhou para ele. Viu a angústia nos olhos escuros do rapaz. E, pior, viu um reflexo de si mesma.

— Rosália — ela sussurrou, testando o nome no ar. — Minha mãe se chama Rosália. Eu lembro de caminhar com ela hoje. Mas agora… é como se ela tivesse sumido na fumaça. E ainda estou com a sensação impotente, como se eu soubesse do destino, mas…

— Eles apagam a gente — disse Noah, a voz perigosamente alta. — Toda vez que aquela maldita trombeta toca. Eles resetam a gente. Eu tenho quase certeza.

— Cale a boca, Noah! — Marina sibilou, o coração disparado. — Se alguém ouvir…

— Que ouçam! — Ele largou a faca. — Olha pra isso, Marina. Olha pra gente. Somos marionetes. Acordamos, trabalhamos, louvamos e caímos. Dia após dia. Onde está a noite? Você já viu uma estrela?

Marina paralisou. Estrela. A palavra era estranha, arcaica, mas despertou uma saudade avassaladora em seu peito. Ela olhou para cima, para o céu branco e opressor. A conversa com Noah parecia precipitada e estranhamente exagerada.

— Eu… eu sonho com elas. Pontos de luz no escuro.

— Não é sonho. — Noah se aproximou, invadindo seu espaço pessoal, violando a regra de distanciamento. — É memória. O mundo não é só isso. Não pode ser só isso. Eu posso estar sendo muito insensível, talvez, mas eu acordei do último sono como se algo estivesse errado em mim e…

— E por que confiou em mim?

Eles ficaram em silêncio por um momento, a tensão vibrando entre eles como uma corda esticada. Havia uma conexão que ia além da conversa proibida. Marina sentiu que conhecia Noah há mil vidas, que já tiveram aquela mesma conversa em mil outros despertares. E, estranhamente, isso era algo automático. Não precisou se apresentar em nenhum momento.

— Eu não tinha pensado sobre isso ainda — respondeu Noah, encabulado.

— Precisamos trabalhar — disse ela, tentando recuperar o controle. — Se não vendermos os peixes, não teremos períodos para comer.

— Comer… — Noah bufou. — Outra prisão. Qual foi a última vez que você comeu?

Marina olhou para o horizonte e tentou forçar a memória. Era algo que deveria ser fácil de lembrar, mas… ela não entendia o que havia mudado. O último sono despertou um sentimento diferente neles. Talvez fosse só impressão.

Mas eles voltaram ao trabalho. As horas se arrastaram, marcadas apenas pela diminuição da pilha de peixes e pelo aumento do cansaço. Conversaram sobre banalidades, sobre o preço da farinha, sobre a qualidade das escamas, mas a verdade estava lá, não dita, pulsando entre eles. A dúvida havia criado raízes. Ela realmente era uma doença contagiosa.

Quando o sino do Templo anunciou o fim do turno, o céu branco começou a ganhar um tom levemente alaranjado, a única variação cromática que aquele mundo permitia.

Marina tirou o avental. Sentia o corpo moído.

— Até amanhã, Noah? — perguntou ela.

Ele a olhou profundamente.

— Se a gente acordar.

Marina saiu do mercado e caminhou de volta pela avenida larga. O calor diminuíra, mas o ar ainda era abafado. Ela olhou para as casas de metal, agora tingidas de laranja, e para o Templo de concreto, que parecia absorver a luz.

Eu quero ver a noite, pensou ela, uma vontade súbita e dolorosa.

Foi então que o som cortou o ar. Era grave, profundo, vibrando nos ossos antes de chegar aos ouvidos. A Trombeta.

Truuuummmmm.

O som preencheu o mundo, abafando os pensamentos, paralisando os músculos. Marina viu uma mulher à sua frente cair de joelhos, os olhos virando para cima. Um homem largou alguns objetos que segurava e desabou como um saco de batatas. O som era desconfortável.

— Não… — Marina tentou resistir. Tentou segurar-se num poste de luz. — Agora não… eu estava quase lembrando…

Mas a gravidade parecia ter triplicado. Suas pernas cederam. O asfalto quente a recebeu novamente. A bochecha quicou no chão. Sua boca aberta salivou ao chão. O mundo escureceu lentamente, e sua última lembrança fora do sangue transpassando suas pálpebras.

Capítulo 2 — Temperança

Ao Som da TrombetaCHBLACKSMITHLançamento: 09/01/2026Comprar na lojaPágina do livro